ORIGEM DO KUNG FU SHAOLIN

A ordem Shaolin data de aproximadamente de 525 AD (anterior ao séc. XVI) quando um monge budista indiano conhecido como Bodidharma (Tamo em chinês), deixou seu templo no sul da Índia e viajou para a China visando difundir o budismo, mais tarde conhecido como Budismo Ch’an (Ch’an é uma tradução chinesa para a palavra "dhyana" que significa, em Sanskrito, concentração yoga, também conhecida como Zen.). Para isso, viajou centenas de quilômetros para alcançar a China do Norte. Cruzou os Himalaias, cruzou o rio Yangtse e seguiu para o Norte em direção a Lonyang, capital da Província de Honan. O Imperador acreditava que se tratava de um projeto nobre, que seria o caminho para o Nirvana, e com isso ordenou a tradução de textos budistas de Sanskrito para chinês, utilizando monges budistas locais. Sua intenção era permitir que a população obtivesse acesso à essa "nova" religião (Budismo). A visão de Tamo em relação ao Budismo era a de que você não pode alcançar sua meta simplesmente através de boas ações executadas por outros em seu nome.

A partir deste momento, o Imperador e Tamo divergiram. Tamo viajou para uma floresta vizinha, e encontrou o Templo Shaolin Ssu (Templo Floresta Jovem). Este Templo, foi construído pelo Imperador Hsio Wen da dinastia Wei do Norte (386-534 AD) e se tornou famoso pelas traduções de manuscritos budistas para chinês.

A lenda conta que Tamo, encontrou uma caverna nas profundidades onde se instalou e entrou em profunda meditação de frente para uma pedra por mais ou menos nove anos. Muitas lendas narram as práticas meditativas de Tamo; diz-se que ele podia ouvir o caminhar das formigas subindo as pedras da caverna e que para não entrar em sono profundo, havia cortado suas pálpebras. No fim dos nove anos seu constante fitar escavou um buraco na parede da caverna fazendo com que Fang Chang (Grão-Mestre do Templo Shaolin) não mais recusasse sua entrada no Templo. Bodhidharma se tornou o primeiro sucessor (patriarca) do clã Ch’an na China.

Quando Tamo se uniu aos monges, observou que estes não se encontravam em boas condições físicas. Eles gastavam horas por dia curvados sobre as mesas onde transcreviam textos manuscritos. Consequentemente os monges shaolin gastavam toda a energia necessária para executar até mesmo as mais básicas práticas de meditação budista. Tamo controlou sua fraqueza ensinando-os exercícios de movimentação, criados para aumentar o fluxo Ch’i e a força.

Estes movimentos foram baseados na Yoga Indiana (principalmente Hatha e Raja) que associava movimentos de 18 principais animais encontrados na fauna e na mitologia indo-chinesa (ex.: tigre, garça, leopardo, cobra, dragão, etc.). Tamo também somou aos exercícios respiratórios formas de uma arte marcial que existia na Índia. Parecia surgir o Kung Fu Shaolin.

Os ensinamentos de Bodhidharma foram mais tarde enriquecidos e refinados tornando os mestres shaolin mais poderosos.

Em 1644 AD., os Manchus vieram ao poder (Dinastia Ch’ing 1644-1911 AD.). Muitos dos oficiais provenientes da dinastia anterior (Dinastia M’ing) encontraram refúgio no Templo Shaolin e os Manchus destruíram o Templo. Somente cinco mestres escaparam, aqueles que foram para o Norte e ensinaram os Mongóis, acostumados ao frio intenso, enquanto, aqueles que foram para o Sul ensinaram aqueles que estavam acostumados a um clima mais quente.

Mesmo com a destruição do primeiro Templo Shaolin (Ssu), outros surgiram dando origem a outras ramificações que se espalharam pela China e pelo Mundo. Hoje as duas ramificações mais conhecidas são as ramificações, Shaolin do Norte e a Shaolin do Sul.

Nas regiões frias do Norte da China o solo era duro, permitia mais estabilidade quando se utilizavam de chutes. Por isso, os estilos do Norte enfatizavam chutes, movimentos acrobáticos, e técnicas de luta de solo (imobilizações).

Por outro lado, nas regiões mais quentes do sul, o solo era mais macio, muitas vezes úmido, fazendo dos chutes uma tarefa mais complicada. Como resultado disso, as técnicas do Sul enfatizavam posturas mais baixas e técnicas mais aprimoradas com as mãos.

É difícil precisar quando estes exercícios se tornaram "arte marcial". O Templo Shaolin se encontrava em uma área fechada porém, de possível passagem de bandidos em fuga ou em viagens. Além do mais, muitos animais selvagens eram freqüentemente tidos como problema. Assim, a parte "marcial" do Templo provavelmente se iniciou para preencher as necessidades de defesa pessoal. Após algum tempo, estes movimentos foram codificados em um sistema de defesa pessoal e com o passar dos anos esta vertente budista passou a ser mais distinta das outras devido aos estudos das artes marciais. Isto não é dizer que Tamo inventou as artes marciais.

As artes marciais existem na China há séculos mas, com o confinamento dos Templos, foi possível desenvolver e codificar estas artes marciais em novos e diferentes estilos que se tornariam exclusivamente Shaolin. Sucessivos ataques e longos períodos de inatividade, fizeram com que o Templo de Honan desse origem a outros Templos. Líderes imperiais e regionais temiam o poder das artes marciais de adeptos nem sempre monges Shaolin. Refugiados Shaolin adeptos das artes marciais deixavam os Templos para ensinar privativamente ou em outro Templo Taoísta ou Budista. Devido as circunstâncias, novos Templos Shaolin surgiram (Fukien, Kwangtung) ou se convertiam de outros já existentes (Wu-tang, O Mei Shan). A rebelião dos "Boxers" em 1901 foi o início da decadência dos Templos Shaolin.

No princípio, a China foi ocupada pelo Oeste, depois, pelo Governo Japonês e interesses estrangeiros. Os ingleses tornaram a família imperial em um regime impotente de "marionetes" através de uma larga escala de importações e venda de Ópio. Esta devastação, provocada pela droga (ópio), atingiu a pobre população. Isto possibilitou a incursão devastadora de outras potências européias, incluindo a Rússia, França, Holanda e mais tarde japoneses e americanos.

No fim dos anos de 1800, a China era efetivamente dividida em zonas nacionais, cada uma controlada por um dos "donos" externos. A longa e permanente animosidade entre a China e Japão piorou e se estendeu, incluindo todos os outros "demônios estrangeiros". Em conjunto com o mais universal desprezo dos chineses a sua (então no poder) Imperatriz, nascia um movimento nacionalista com fortes raízes populares. Acompanhando os soldados na linha de frente estavam alguns lutadores pertencentes a nova "ordem" onde os legendários artistas das artes marciais eram (muitos Shaolin) conhecidos como boxeadores (como Bruce Lee que em seus filmes, fazia menção a esta época, se intitulando como o boxeador chinês).